8 pontos críticos que devem ser observados para garantir a biosseguridade em granjas de aves
A redução dos problemas sanitários dos plantéis avícolas está associada à aplicação de um programa de biosseguridade eficiente. Confira neste artigo os principais pontos que devem ser observados, e seguidos, para um melhor controle na biosseguridade das granjas.
Nos últimos anos, os produtores de granjas avícolas têm enfrentado desafios cada vez maiores. Um deles diz respeito às condições extremas resultantes do confinamento das aves, que impedem o movimento delas e geram estresse, colocando em risco as condições sanitárias do lote.
Mas existem outros pontos críticos que podem comprometer a biosseguridade em granjas de aviários. Por isso, deve-se levar em conta alguns fatores que estão relacionados diretamente às atividades operacionais.
Para um programa de biosseguridade adequado o indicado é seguir alguns procedimentos, que se complementam, formando uma cadeia de ações, conforme mostra a figura abaixo (Sesti, 2004):
1º fator - Isolamento e as regras de distanciamento entre as unidades de produção
O aumento anual na construção de granjas, complexos de granjas ou ainda de unidades de produção é considerado um fator crítico, porque tem sido cada vez mais difícil manter uma granja isolada de outras propriedades do mesmo setor, frigoríficos e abatedouros.
O Ministério da Agricultura (MAPA), determinou na Instrução Normativa nº 4/1998 as distâncias mínimas a serem observadas entre a granja de matriz e outros estabelecimentos, sendo definidas as seguintes medidas:
- Distância entre Granja e Abatedouro: 5.000 m
- Distância entre Bisavozeiro e Avozeiro: 5.000 m
- Distância entre Matrizeiros: 3.000 m
- Distância entre Núcleos e Limites Periféricos da Propriedade: 100 m
- Distância entre Núcleo e Estrada Vicinal: 500 m
- Distância entre Núcleos de Diferentes Idades: 500 m
- Distância entre Recria e Produção: 500 m
A distância mínima entre aviários do mesmo núcleo, é o dobro da largura dos aviários.
As construções devem ser sempre protegidas por barreiras naturais e físicas, tendo o conhecimento da direção do vento no momento da construção também é importante para diminuição de contaminações por vias aéreas. O ideal é ter um único portão de acesso, evitando desta forma, o livre trânsito de pessoas, veículos e animais no interior do núcleo de produção.
Crédito: Google Earth
2º fator - Aplicação de procedimentos de controle de fluxo
Microrganismos podem percorrer grandes distâncias através de carreadores como calçados, roupas, cabelos, pelos, insetos, animais e veículos. A aplicação de procedimentos de controle de fluxo de pessoas e veículos é necessário para diminuir o risco de contaminação dos lotes.
Na hora da contratação dos colaboradores, esses devem assinar um contrato de compromisso com o cumprimento de todos os procedimentos de biosseguridade, obrigatórios para a criação de aves conforme legislação prevista no PNSA (Plano Nacional de Sanidade Avícola). Dentre os procedimentos obrigatórios, há o comprometimento de não manter contato com qualquer tipo de aves, sejam pássaros ornamentais, patos, gansos, marrecos, avestruz, perus, e ou aves caipiras, e igualmente se comprometer a orientar e a cobrar igual procedimento de meus funcionários ou terceirizados.
É recomendável uma portaria de acesso, a qual deve conter uma área de recepção, escritório, banheiro e vestiários. Na portaria deve ser feito o registro no livro de controle de visitas, com o nome da pessoa, da empresa, do motivo da visita, a data e se teve contato com outras aves e animais. É importante manter um fluxo que não permita a circulação entre locais considerados “sujos” e “limpos”.
Exemplificação de vestiário. Área sombreada em azul representa “área suja”. As setas indicam o fluxo de banho e troca de roupa para acesso à granja.
O trânsito da área suja para área limpa ou o inverso deve ser feito sempre com banho e troca de roupa e calçados. No banho, deve-se ensaboar os cabelos com muito sabão e esfregados por inteiro, o nariz deverá ser assoado, pois suas secreções são um meio ideal para o desenvolvimento de transporte de bactérias. Todo o corpo deverá ser bem ensaboado e esfregado, especialmente as áreas cobertas de pelos. As unhas das mãos e dos pés devem ser bem escovadas com sabão e estar cortadas e limpas. Após o procedimento de banho deve ser colocada a roupa interna da granja. Essas medidas devem ser realizadas por todos que entrarem na granja.
O fluxo de veículos nas granjas deve ter um controle maior, pois esses são grandes acarretadores de patógenos, e devem ter um processo de lavagem e desinfecção maior. Além de fazer o registro no livro de entrada de caminhões, deve-se fazer a lavagem com máquina de pressão com água e detergentes para retirar o excesso de material orgânico antes de passar pelo arco de desinfecção contendo desinfetantes.
3º fator - Higienização das granjas para quebra do ciclo de infecção
A higienização das instalações, visa diminuir os riscos de infecções e a quebra do ciclo de agentes infecciosos. A higienização compreende em procedimentos de limpeza seca, limpeza úmida e desinfecção das instalações e equipamentos. Na higienização, a limpeza é tão importante quanto a desinfecção. A remoção de detritos e gorduras dos lotes passados é imprescindível para o sucesso da desinfecção.
- Limpeza Seca: consiste na remoção do material orgânico (cama de aviário, ração, fezes, penas, ovos quebrados) com vassoura e espátulas para raspar torrões de cama, de ração ou outros resíduos.
- Limpeza Úmida: consiste na limpeza com água e sabão ou detergente. Os detergentes são agentes de limpeza que servem para dispersar e remover a matéria orgânica das superfícies. A ação nestes materiais reduz a tensão superficial, aumentando assim a capacidade da água em penetrar e destacar as sujidades da superfície das instalações, evitando que estas se acumulem.
Na desinfecção são utilizados agentes químicos que eliminam os patógenos por contato, para garantir a máxima eficiência. O processo de desinfecção deve ser realizado sempre na direção do teto para o chão, distribuído por toda superfície. Durante esse processo, as cortinas devem estar fechadas, para não ocorrer correntes de ar e dispersar o desinfetante.
Procedimentos da higienização no aviário:
1º) Como primeiro procedimento de higienização é necessário realizar a desinfecção com produtos à base de formaldeído e ácidos orgânicos, importantes para iniciar o processo de desincrustação. A aplicação deve ser feita em toda estrutura interna dos aviários e em toda extensão das calçadas, muretas, alambrado, pátio, composteira e áreas de apoio. Manter o aviário fechado e esperar por 12 horas.
2º) Depois do primeiro passo, dependendo do nível de contaminação é necessário fazer ainda uma segunda desinfecção, utilizando produtos à base de ácidos orgânicos. É preciso aplicar em todas as superfícies dos aviários, seguindo a ordem de cima pra baixo e esperar por 12 horas.
3º) O terceiro passo de desinfecção deve ser feito também com produto à base de sais de ácidos orgânicos. Esta aplicação ocorre por nebulização um dia antes de alojar, em todo aviário e/ou ao longo de vida do lote, para diminuir a carga bacteriana do aviário.
4º fator - Atenção a vacinação dos frangos
O programa de vacinação é mais um ponto para se ter atenção. A empresa será responsável por elaborar o programa de vacinação. Esse programa deve ter foco no controle dos desafios sanitários da região e basear-se em resultados técnicos e laboratoriais. A vacinação deve dar proteção suficiente contra doenças intercorrentes na região, além da vacinação obrigatória em pintos de um dia contra a doença de Marek.
Alguns pontos principais para o êxito da vacinação:
- Seguir o cronograma proposto;
- Respeitar os prazos de validade das vacinas, as vias de aplicação e as diluições indicadas;
- Realizar treinamento sistemático e educação contínua da equipe sobre boas práticas de vacinação;
- Manusear e conservar as vacinas de forma adequada;
- Manter a qualidade da água na vacinação (T°C e pH);
- Limpar e desinfetar os utensílios utilizados pelos vacinadores.
5º e 6º fatores - Biosseguridade na granja e erradicação de doenças
O monitoramento sorológico e bacteriano tem a função de avaliar e reajustar o programa de vacinação, determinar os níveis de imunidade, diagnosticar surtos de doença e avaliar a biossegurança na granja.
São monitorados todos os lotes da granja, através do envio de material para um laboratório de patologia animal credenciado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), com o acompanhamento do Médico Veterinário oficial do órgão, conforme descrição a seguir:
- Do 1° ao 5° dia de vida – iniciam as coletas;
- 12 semanas - realizam-se coletas de 300 soros (por lote ou núcleos) e um pro pé por aviário em recrias;
- 25 semanas - coletas de 150 soros (por lote ou núcleos) e um pro pé por aviário na produção;
- Exames solicitados: SAR-MG, SAR-MS e ISL-SALM.
Além das monitorias oficiais são utilizados métodos de suabes estéreis e plaqueamentos para avaliação dos desafios e avaliação da eficiência de um programa de limpeza e desinfecção. Esses monitoramentos podem analisar a carga microbiológica de enterobactérias e presença de salmonela. Com esses resultados é possível fazer um plano de ação na tentativa de erradicação dessas doenças.
7º fator - Auditorias para controle dos procedimentos
A aplicação de programas de 5S e auditorias são fundamentais para checar o programa de biosseguridade e, se existirem erros, agir rapidamente realizando planos de ações e ajustes nos procedimentos. O programa de 5S através de seus princípios auxiliam na obtenção de padrões operacionais que contribuem para maior eficiência e excelência na realização das tarefas de biosseguridade. Aliado às auditorias constantes, com uma frequência mensal ou bimestral, permite-se identificar quais os processos ou pontos que necessitam de ajustes ou correções.
8º fator – Educação continuada como parte de programa de capacitação
A educação continuada deve fazer parte da empresa desde o momento da admissão dos funcionários. É indicada a aplicação das instruções já no processo de integração, onde o departamento de recursos humanos precisa oferecer uma visão geral das políticas da empresa, englobando neste momento, a importância da biosseguridade para o setor de produção avícola. Durante os três primeiros meses, no decorrer do período probatório, é necessário oferecer treinamentos aos funcionários das normas de biosseguridade pertinentes às suas atividades. E outras atualizações também precisam ser repassadas com periodicidade semestral no tocante às normas de biosseguridade, de acordo com a matriz de treinamento. Quando identificada uma oportunidade ou necessidade o ideal é realizar treinamentos extras com o intuito de oferecer capacitação adicional aos interessados.
A diminuição dos problemas sanitários dos plantéis avícolas está associada à aplicação de medidas simples, mas necessárias, que compõem o programa de biosseguridade. Deve-se estar atento aos cuidados básicos de limpeza e desinfecção, pois esses procedimentos rotineiros - que, muitas vezes, são desconsideradas sua importância - compreendem o alicerce para a um bom programa de biosseguridade.
Assim como a biosseguridade deve ser observada nas granjas, os ambientes de produção de aves também devem ser monitorados. Confira neste artigo quais os procedimentos essenciais para combater patógenos em equipamentos e instalações.
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Rafael Soares - Médico Veterinário, mestrando em Produção Animal.
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