Saúde hepática das aves: uma nova fronteira a ser desbravada para melhorar a produtividade do lote
Para que as aves expressem todo seu potencial genético a saúde do fígado é fundamental. Entenda neste artigo quais fatores afetam o sistema hepático e as medidas para melhorar o funcionamento do órgão.
O intensivo programa de produção de proteína animal tem exigido cada vez mais do organismo dos animais, dessa forma, a produtividade é mensurada pelo adequado funcionamento de todo o mecanismo de existência do animal.
Diante disso, alguns órgãos precisam estar saudáveis para que o animal possa expressar todo seu potencial. Dentre eles, o fígado, que exerce alto impacto na saúde dos animais. Confira a seguir os fatores que afetam o sistema hepático e a forma de melhorar o funcionamento do órgão nas aves.
Qual a função do fígado das aves?
O fígado desempenha um papel homeostático fundamental, atuando em diversos processos como, por exemplo, na síntese e metabolismo de importantes substâncias (lipídeos, carboidratos e proteínas), além de participar efetivamente de processos de excreção e detoxificação (Denbow, 2015). Dentre as funções que o fígado desenvolve no organismo estão:
- O auxílio na digestão de alimentos pela excreção de bile, rica em ácidos biliares, que são sintetizados no fígado por meio do colesterol;
- O metabolismo de carboidratos, para suprir as demandas energéticas do corpo;
- A quebra de metabólitos, drogas e químicos protegendo o restante do organismo;
- A síntese de proteínas essenciais como a albumina, fibrinogênio e protrombina (MITCHELL et al. 2009).
Qual a importância do fígado?
O fígado é o órgão que desempenha o maior número de funções vitais no organismo animal e tem como principais funções a armazenagem, desintoxicação e síntese e metabolização.
- O órgão armazena energia na forma de glicogênio;
- Atua no metabolismo de nutrientes, como carboidratos, lipídeos e proteínas;
- Ajuda a filtrar, processar e eliminar toxinas produzidas pelo organismo ou provenientes do ambiente;
- Também é responsável por armazenar vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) (Sharon, 2016).
O fígado estoca o excesso de gorduras e açúcares, produz algumas proteínas, produz a bile para emulsificar gorduras e excreta metabólicos a partir do sangue (Hoffmann & Volker, 1969). Quase sempre as galinhas com um alto nível de produção de ovos dentro de um lote, apresentarão os fígados de cor marrom claro ou amarelado, como consequência dos depósitos de gordura e pigmentos. Estes nutrientes também serão transportados do fígado aos ovários para formar os folículos ovarianos, que posteriormente se transformarão em ovos.
Além do seu papel fundamental no controle do metabolismo celular, o fígado atua também como glândula anexa ao Trato Grastrointestinal (TGI). Participa também do processo digestivo através da produção de bile pelos hepatócitos, sendo excretada pelos ductos coletores de bile. Esta tem como função facilitar a absorção de gorduras pela sua ação emulsificante e pela ativação da lipase pancreática, além da presença de pequena quantidade de amilase atuando na digestão dos carboidratos.
A bile, secreção produzida pelo fígado, é constituída por ácidos biliares, água, eletrólitos e proteínas, como imunoglobulinas A. Além desses componentes, estão presentes pigmentos biliares, colesterol, fosfolipídeos e ácidos graxos. O principal pigmento biliar presente é a biliverdina, que confere a coloração esverdeada às fezes das aves. Os hepatócitos sintetizam os ácidos biliares a partir do catabolismo de moléculas de colesterol. O processo de conversão ocorre em várias etapas e resulta na transformação do colesterol, uma molécula hidrofóbica, em ácidos biliares, que são moléculas anfipáticas, ou seja, com uma região hidrofóbica (que não tem afinidade com a água) e outra hidrofílica (que possui afinidade com água).
No processo digestivo, a bile tem por função, emulsificar os lipídeos, aumentando a sua superfície por meio da formação de microgotículas de gordura (Figura 1). Durante a emulsificação, os ácidos biliares organizam-se ao redor das microgotículas de gordura, formando uma estrutura de tal forma que a parte hidrofóbica fica em contato com a gordura localizada internamente, e a parte hidrofílica fica voltada para o exterior, em contato com as secreções e o ambiente luminal. A formação de microgotículas de gordura é essencial para que a enzima lipase, de origem pancreática, consiga agir na digestão das gorduras. Além do importante papel na digestão da porção lipídica da dieta, a bile auxilia no controle do pH intestinal, devido à grande concentração de bicarbonato na sua constituição. Aproximadamente, 95% dos ácidos biliares secretados na bile são reabsorvidos no íleo.
Figura 1. Fonte: https://thealevelbiologist.co.uk/lipids-and-amino-acids-in-respiration/
Pela circulação entero-hepática, chegam ao fígado por meio da veio porta-hepática e irão participar, novamente, da síntese de bile. Esse processo de reabsorção e reciclagem é contínuo durante o período prandial, evitando a síntese de novos ácidos biliares e reduzindo o gasto energético dos hepatócitos.
A digestão dos lipídios ocorre com o auxílio de enzimas e de emulsificantes e grande parte deste processo ocorre no duodeno, jejuno e íleo. Esses nutrientes são emulsificados, digeridos e absorvidos pelas células da mucosa intestinal, sendo a maior parte da gordura absorvida pelo jejuno médio. Quando as gorduras provenientes do estômago ingressam no intestino delgado encontram um ambiente alcalino, onde a liberação da bile e suco pancreático é estimulada. A bile, produzida no fígado e armazenada na vesícula biliar, tem por função emulsificar os lipídios, aumentando a superfície deles com a formação de microgotículas de gordura.
Fatores que afetam o funcionamento adequado do fígado
O fígado atua como um filtro que processa e elimina toxinas procedentes de descartes produzidos pelo próprio metabolismo, toxinas e substâncias químicas nocivas provenientes do ambiente e microrganismos eliminados pelas células de Kupffer, porém, alguns fatores podem influenciar esse funcionamento de maneira inadequada.
Toxinas como os metais pesados, micotoxinas e algumas plantas venenosas podem provocar efeitos muito sérios no funcionamento do fígado. A aflatoxina, considerada uma das micotoxinas mais tóxicas identificadas na natureza, pode causar vacúolos do tipo gorduroso, que pode terminar com a necrose dos hepatócitos, além de hiperplasia dos conductos biliares e fibrose. As micotoxicoses têm grande importância na avicultura, sendo frequente os casos de exposição a micotoxinas. Dentre as micotoxinas, destacam-se:
- Alcaloides da cravagem
- Aflatoxinas
- Tricotecenos
- Vomitoxina
- Zearalenona
- Ocratoxinas
- Oosporina
- Citrinina
- Fumonisina (Hoerr, 2020)
Dietas com alto teor de energia e gordura, como o girassol, podem sobrecarregar o fígado, aumentando a lipogênese, ultrapassando a capacidade de síntese e a liberação de lipoproteínas, gerando um acúmulo de gordura intra-hepática. Esse efeito é comum em aves de gaiolas, as quais recebem uma dieta com maior concentração de grãos e oleaginosas.
Contaminações microbiológicas (figura 2), também podem alterar o funcionamento do fígado, como por exemplo, a contaminação por colibacilose e a contaminação por Salmonella. Ambas, alteram a característica do fígado, apresentando coloração diferente de um órgão saudável.
Figura 2. Frangos de corte condenados totalmente por colibacilose.
(A) Fígado moderadamente aumentado de tamanho com pontos esbranquiçados de 1 a 5mm, firmes, multifocais a coalescentes com aspecto estrelado, na superfície capsular.
(B) Fígado severamente aumentado e padrão lobular evidente. Destaque: superfície de corte com padrão lobular e ductos biliares evidentes.
(C) Fígado com coloração vermelho-escura e lobo esquerdo com pontos esbranquiçados de 1mm multifocais na superfície capsular.
(D) Sacos aéreos (seta preta) e fígado com moderada deposição de fibrina (seta vermelha). Fonte: September 2017, Pesquisa Veterinária Brasileira 37(9):949-957, DOI:10.1590/s0100-736x2017000900009
Aditivos que contribuem para a saúde do fígado
Como ferramenta para otimizar a capacidade do fígado de síntese, armazenamento e desintoxicação, podemos utilizar aditivos como a silimarina, um importante hepatoprotetor.
Os princípios ativos dos extratos de plantas e óleos essenciais são absorvidos no intestino e rapidamente metabolizados pelos enterócitos (KOHLERT et al., 2000), biotransformados no fígado e posteriormente excretados pela urina e respiração (CO2), diminuindo desta maneira o risco de acumular-se nos tecidos, quando comparados com os antimicrobianos promotores de crescimento (BHAT & CHANDRASEKHARA, 1986).
Aminoácidos e vitaminas, também oportunizam ao fígado aporte para as suas funcionalidades, com destaque para a metionina e colina, doadores do grupo metil, que também ajudam na metabolização e melhoria da saúde hepática. Os adsorventes, que contribuem para diminuir o impacto das micotoxinas no organismo animal. Além de uma boa formulação, é importante avaliar todo o processo de produção, com a adoção das Boas Práticas de Fabricação (BPF), esses cuidados impactarão de maneira considerável na saúde hepática das aves.
Com grandes oportunidades de utilização na avicultura moderna, confira os benefícios dos ácidos orgânicos microencapsulados e como estes compostos podem ser uma ferramenta estratégica na busca por melhores resultados do lote.
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Caroline Facchi - Engenheira Agrônoma, especialista em fábrica de ração. Mestre em Sanidade e Produção Animal e doutoranda em Ciência Animal, na linha de nutrição de monogástricos. Pesquisadora na área de Pesquisa & Desenvolvimento e Gerente de Produto da BTA Aditivos.
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